sábado, 5 de outubro de 2013

A Conversa



Dava pra ver o sol de lá. Era a única coisa que se podia ter certeza.

A lua, nem sempre se podia ver. Pelo menos não tinha sido vista em quase nenhuma daquelas noites.

De quando o moço estava preso, hoje velho, se lembrava bem. Lembrava de ver o sol, não ver a lua e do amigo argentino.

A prisão daquele tempo, se comparar com o que vemos hoje, é difícil dizer se era melhor ou pior. Mas com o neto ali, perguntando, tinha de dar uma resposta.

"_Era diferente"! Pronto, quem sabe assim parassem as perguntas. Mas o menino era insistente, queria saber era se o avô tinha apanhado. Via na televisão que gente presa apanhava, que não comia direito, que não tinha cama pra dormir e que dormiam todos atravessados e sem espaço.

“_É, era assim mesmo!” O avô achou melhor concordar com a maior parte, evitaria perguntas novas.
“_Mas e as visitas vovô? Podia ou não podia? Vi no jornal que a mulher foi visitar o marido e levou uma arma pra ele. A vovó levou uma arma pra você?”

A avó em questão escutava tudo de ouvido espichado da cozinha. Fingia que estava picando cebola, mas prestava mesmo era para ouvir a conversa.

Ela não ia nunca, não visitava, dizia que tinha medo. Mas se o avô contasse isso ao menino ia deixá-lo triste. Sem falar que conhecia a esposa que tinha e achou melhor não arriscar, disse só: "_Nunca me levou uma arma."
O menino riu como se já soubesse. A avó suspirou aliviada.

Quando o velho ameaçou levantar da cadeira de balanço, o neto disparou: “_ Mas e o argentino que você falou? Tava preso por quê? Ele não devia ter ficado preso lá no país dele?”

O avô logo se lembrou do argentino dizendo: “_Podia ter ficado preso no meu país, mas lá já estaria morto”.
"_Devia, devia sim. Mas fez seu crime aqui, daí não teve jeito!" Respondeu mais devagar dessa vez, como se tentasse se lembrar
.
A avó lá da cozinha falou sozinha bem baixinho: “ _ Qual era o crime dele vovô?”
O menino, como num eco, disse: “_Qual era o crime dele vovô?”

Se o avô dissesse que o crime do argentino era pensar demais e depois escrever as coisas que pensava, não ia adiantar nada, ia deixar o moleque cheio de perguntas novas e o cheiro de cebolas fritas já estava dando sinal de comida pronta
.
_ “Ele abriu a boca quando não podia. Agora chega de conversa fiada, que essas coisas já passaram faz tempo! Você não tem nada pra fazer não?” Disse já se levantando.

O menino olhou pra fora, lá pra calçada. Fitou a rua vazia por um tempo, olhou novamente para o avô e disse tranqüilo:
“_ Eu tenho que escrever umas coisas que eu penso, da pessoa que mais gosto pra aula de história.”
 O avô passou a mão na barba branca e seca e respirou fundo. A avó, que escutara tudo com seu ouvido espichado, esticou o pescoço para ver como o velho sairia dessa.

Passou a mão nos cabelos do menino e arriscou: “_Se você quiser, eu te conto um pouco mais da prisão, do argentino e das coisas que passamos juntos.”

_ O menino olhou para o avô, se levantou rapidinho e falou calmamente: “_ Não vovô, tudo bem, tenho que esperar a vovó terminar de fazer o jantar pra escrever sobre ela, só estava passando o tempo mesmo.”

Naquela noite a mesa de jantar estava silenciosa. O avô olhava para a avó que sorria demasiadamente, enquanto o menino provava as mais doces cebolas fritas de sua vida. Não dava pra ver a lua.

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A Conversao de Juana Correia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Arte do Blog

Algumas pessoas têm perguntado sobre os desenhos usados no layout desse blog. Quem leu o meu primeiro post, Chão Colorido, deve ter imaginado que os desenhos expostos aqui são dele, do meu pai. O nome dele é Jacinto, já ilustrou muitos livros, trabalha com artes gráficas e publicidade e já teve a honra de ilustrar para autores como o maravilhoso poeta Manoel de Barros. Como eu disse naquele conto, ele tem várias fases e essa, desses desenhos, me encanta especialmente! Vou postar desenhos novos por aqui, ilustrando meus contos, espero que gostem!

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Cruz de Sabão

O menino corria tão intensamente, que entre uma pedra e outra que caíam do bolso, deixava para trás, além de suor e poeira, pedaços de borracha que soltavam dos chinelos velhos.

Apressado, o garoto não olhava para trás. No pensamento confuso, lembrava poucas palavras. Como era mesmo? “Santificado seja o teu nome”, ou “seja o vosso nome”? Achava mais bonito que fosse “vosso nome”, gostava daquele jeito de se referir a ELE, “vosso”, “estais”. Não se lembrava de ver ninguém falando assim. Por outro lado não poderia perguntar em casa, lá ninguém gostava dessas coisas que “não existem”, existem?

O professor tinha dito que se falasse o texto o todo, era possível ser ouvido. Mas é tão longo, difícil lembrar todas as partes.

Passou pelo portão sem tocá-lo. Correu para os fundos da casa e pegou uma caixa escondida em meio às roupas sujas da família. Embrulhou cuidadosamente em uma toalha e entrou.

Parado do lado de dentro olhou com atenção o caminho que o levaria ao pequeno cômodo. Viu um gato, dois gatos, a avó parada em frente ao fogão. Mais adiante viu uma irmã, duas irmãs, mais um irmão, todos distraídos.

Se pisasse devagar, ninguém escutaria, mas se fosse rápido, seria mais natural, do seu jeito de menino levado e assim ninguém daria atenção ao seu propósito.

No primeiro passo pensou: _ “Seja feita a vossa vontade. Quando deu por si já estava lá, só ele, a caixa e o pequeno altar. Bem sabia que privada não era altar, mas se abaixasse a tampa poderia colocar a caixa em cima e daria certo.

Abriu a caixa e tirou um embrulho. Com a toalha suja secou o suor do rosto, das mãos e forrou o altar improvisado. Desembrulhou a peça e a colocou sobre a tampa da latrina. Ajoelhou-se, com as mãos molhadas e começou a moldá-la. Já trabalhava com a peça de sabão há alguns dias. Já estava quase tomando a forma de uma cruz, tal qual a da igreja, a da história do Jesus contada nas aulas de religião, que só de lembrar lavavam os olhos do menino. Queria era terminar logo para poder usá-la enquanto falava a reza inteira. Quem sabe assim Ele ouviria? E se ouvindo o menino, Ele trouxesse o pai de longe? E se quando ouvisse e visse a peça pronta Ele fizesse a alegria tomar conta da casa, dos irmãos, da avó tão cansada e da mãe, e então todos passassem a acreditar no Jesus e não só na política. Será que o Jesus era comunista também?

Quando começava a pensar nas coisas que ouvira e nas histórias que aprendera, só de imaginar que tudo aquilo fosse verdade, quando os olhos molhados já não enxergavam a forma em cruz e quando as mãos se perdiam em meio a tanto sabão, alguém batia na porta.

Alguém batia na porta. Um irmão apressado precisava usar o banheiro. Um irmão que não sabia das coisas como ele e, que talvez, se soubesse, correria para contar a todos o quanto o menino era bobo de acreditar nessas coisas que “não existiam” e que “deixavam o homem fraco”.

Agora era tirar o sabão das mãos, embrulhar a cruz ainda úmida e desmanchar o culto, oculto.

Tinha que se lembrar de perguntar para o professor se era a “tua vontade” ou a “vossa vontade”, e porque sempre que lia no livro sagrado, Jesus era “Ele” com letra maiúscula. Se lembrasse, ia perguntar também se ele ouvia o pensamento, e se perdoava menino que jogasse pedra nas janelas vizinhas. 
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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Chão Colorido

Desde pequena me lembro de entrar em casa e sentir o mesmo cheiro de tinta. Às vezes simplesmente acordava e lá estavam, espalhados, secando no tempo, colorindo o chão. Ficava até mais bonita a sala, o corredor, com vários rostos me olhando, com tipos que pareciam vir nos visitar.

Eu me perguntava como ele conseguia e como era possível tantos rostos pintados em uma única noite. Aí ele me olhava e dizia: cuidado para não pisar. Quantas vezes ouvi essa frase..., como se pudesse fazê-lo. Tomava um cuidado, jamais estragaria, sabia que poderia borrar e que se isso acontecesse, ele jogaria a pintura no lixo.

Vi meu pai pintar velhos, jovens, boiadeiros, índios, camponeses, crianças, pássaros, prédios, poetas, mas o que mais me encantava eram as mulheres, os cabelos sempre cheios de vida, com brincos compridos e olhares ora apaixonados, como se esperassem o grande amor, ora perdidos, misteriosos. Eu costumava olhar as figuras e atribuir a elas um nome, uma profissão, uma vida.

As fases foram muitas, assim como meu pai, respeitando o homem que ele se tornava, os quadros mudavam também. Hoje não vejo mais os personagens como pessoas que pareciam vir nos visitar. Vejo como nós mesmos, qualquer um de nós, vivendo no mundo real, com problemas, com sonhos,  desejos, tudo transmitido em linhas, em cores chapadas, em cenários que antes eram ou claros ou escuros,  mas que hoje são tão vivos quanto os personagens centrais.

Teve um tempo em que as figuras ganharam o mundo, viajaram e foram vistas por muita gente, exibidas aquelas lá..., hoje são menos agitadas, trocam lentamente de lugar nas paredes, ou então se acomodam em fileiras simples para não atrapalhar o caminho. Algumas se guardaram em pacotes bem amarrados, tão bem se guardaram essas, que sumiram misteriosamente.

Meu pai não fala muito sobre os quadros, sentado na prancheta, pinta, coloca para secar, parado em frente namora, distrai-se ouvindo boa música, assovia... , e caso se apaixona, emoldura e coloca na parede, ou dá de  presente a um amigo querido.  O mais triste é que as preferidas dele acabam indo embora, compradas, presenteadas, levadas por um visitante distante e dificilmente são vistas por seus olhos de criador novamente.

O bom de tudo é entrar na casa e sentir o cheiro de tinta, tomar cuidado para não pisar, ver o chão colorido e com sorte ouvir sua voz serena dizendo: gostou? Gostei pai, sempre vou gostar, é tão parte tua quanto minha, é você, somos nós....


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